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"Alcazuz"

  Quando eu era criança, adorava assistir "Eu, a Patroa e as Crianças" . Na verdade, até hoje me divirto com a série, quase sei todas as falas. Existe um episódio em que a filha mais nova, Cady, está com uma amiguinha em casa. Cady oferece para a amiga uma balinha de alcaçuz: "Você quer alcazuz ?" E a amiga logo a corrige: "Se fala alcaçuz", mas Cady não dá muita bola. O episódio segue, e cada integrante da família que chega perto do pote do doce diz: "Olha alcazuz " ou "Eu amo alcazuz ", mostrando que toda a família pronunciava a palavra de forma errada. O que deixa a amiguinha da Cady muito incomodada, querendo que eles percebam que estão falando errado. Eles não se importam. Lembro que, quando eu e a Quezia viemos morar juntos, ela falava trabisseiro , e eu, como a amiguinha da Cady, a corrigia: "É travesseiro", até perceber que toda a família dela falava assim e não dava bola. Isso era deles. Tem coisa de família que só se...

Ler: Um Meio de Transporte

Não me dou muito bem com moto, consigo contar nos dedos as vezes em que eu andei, sempre na garupa, provavelmente atrapalhando o piloto com minha falta de prática. Apesar de eu não gostar, ela cumpre muito bem o seu papel. Da mesma forma um carro leva você de um ponto a outro, como um trem, um ônibus, uma bicicleta, um patinete ou um elevador. A leitura não é diferente, mas ela faz isso sem tirar você do lugar. Estava lendo A Morte de Ivan Ilitch e me vi transportado para a realidade de um homem moribundo. Não que qualquer um de nós esteja diferente dele, mas esse não é o assunto aqui. Fato é que acabei me sentindo ele enquanto lia, e ele ser diferente de mim enriqueceu a experiência. Ao final, não me tornei ele; conheci mais a mim mesmo. Minha mulher e eu podemos ler O Hobbit ao mesmo tempo. A Terra-média que ela vive não é igual à minha. O Bilbo que ela conhece, embora seja o mesmo, não se pode interpretar da mesma forma, cada um de nós o vê de uma maneira particular. A sing...

08:01

 Eu não tinha o costume de usar relógio. Depois de comprar um Casio desses digitais, sinto até estranheza quando não estou com ele. Um dia, vi que o João estava com o relógio na mão e, como um relojoeiro de 2 anos e 4 meses de idade, apertava os botões de forma frenética. Logo que percebi, tirei-o dele. Analisei o relógio e, aparentemente, estava tudo normal. O tempo passou e descobri que agora ele faz um pequeno bip duplo a cada hora. Gostei do trabalho do relojoeiro mirim e mantive o duplo bip como se estivesse ali de forma proposital. De fato, agora está. Uma surpresa maior o relojoeiro tinha deixado para que eu descobrisse no outro dia: 8:00 — duplo bip descoladíssimo. 8:01 — um alarme, bips sequenciais. Logo pensei: "Vou tirar!" Mas deixei para depois. E, a cada dia que tocava, eu pensava em desativá-lo. Agora, não consigo mais. Sempre que o alarme toca, eu me lembro do meu relojoeiro particular, com seu jeito brincalhão, que me lembra que, de tantos erros que comet...

Estrangeiros

Hoje, ao sair do trabalho, tinha que passar no mercado. O motivo era uma receita de frango frito que vi em um vídeo na internet. Precisava de alguns ingredientes. O caminho do trabalho até o mercado é curto. Vou andando sem muita pressa, mas atento. O Centro de Porto Alegre não é o lugar mais amigável que eu conheço. Chegando ao mercado, vou recolhendo na cestinha: frango, alguns temperos, uma maionese e, para acompanhar, uma batata frita congelada. Me dirijo à fila do caixa e, de longe, chama a atenção uma mulher senegalesa e um homem, também senegalês, que se encontraram e, na língua deles, começaram a conversar. Pareciam estar se conhecendo naquele momento, mas tinham em comum a nacionalidade, a língua e os costumes. Pareciam eufóricos e animados por terem se encontrado, pois estavam na mesma situação: a de estrangeiros. Estrangeiros em um lugar onde, muitas vezes, são marginalizados e não muito bem tratados. Quase de súbito, lembrei-me da sensação da primeira vez que estive com irm...

A Morte de Ivan Ilitch - Resenha

 Sem demorar muito, percebe-se que o livro não terá um grande "plot". Essa não é a intenção. Apesar de o nome instigar o leitor a, quem sabe, descobrir quem o matou, esse não é o foco. O livro te coloca no lugar de alguém que está morrendo e, aos poucos, vai chegando cada vez mais perto da face da morte, através de uma doença. Lembro da Jout Jout, quando, provocada sobre o que era a vida, respondeu algo do tipo: "A vida é o período em que nos distraímos da certeza da morte." Grande verdade. Mas, no caso de Ivan, a cada momento fica mais difícil distrair-se dessa certeza; a doença não lhe permite isso. De fato, ele tenta ao máximo apegar-se à vida, e sua angústia vai aumentando à medida que descobre que, por mais que se apegue, não vai funcionar. Seu destino está traçado. Isso é comum a todos nós. Como cristão, que tem plena convicção de para onde (quem) vai quando morrer, o livro tem um peso mais brando. Mas entendo o incrédulo Ivan, que tem medo. Medo de perde...

Marina

  Marina. Descobrimos: teremos uma filha. João receberá uma irmã, e seu nome é Marina. Não tenho muito a falar sobre o nome, senão que esse sempre foi o nome que nos uniu diante de tantas opções. Achamos um lindo nome e sentimos que esse é o nome de nossa filha. Na verdade, desde a gravidez do João, imaginávamos que fosse uma menina; só tínhamos esse nome. Mas precisávamos ter um filho menino. De qualquer maneira, ela sempre existiu. Normalmente, essa é a sensação de quem tem filhos: a de que eles apenas estavam esperando o seu tempo para aparecer. Não imagino um mundo onde o João não exista; ele apenas não tinha chegado, mas, de alguma maneira, não sei qual, ele já existia. O mesmo acontece agora com a Marina. Essa verdade está guardada naqueles incompreensíveis mistérios de Deus. Marina vem para acrescentar, vem para ensinar sem ter, ainda, a capacidade para isso. O Senhor faz isso: dá-nos exatamente o necessário para que aprendamos certas coisas que, de outra maneira, não apren...

Early Days - Resenha

  Dias iniciais do movimento dos assim chamados "irmãos" Este folheto traz cartas enviadas como relatos do início deste movimento do Espírito Santo para resgatar verdades bíblicas fundamentais no século XIX. Os relatos nos mostram que o movimento começou de forma descentralizada, com irmãos em diversas localidades, porém movidos por uma mesma insatisfação com o estado geral da cristandade, que não estava de acordo com o que a Bíblia ensinava. Também eram movidos pelo desejo de simplesmente fazer aquilo que o Senhor desejava de cada um e da igreja como "um só corpo". Percebe-se que, à medida que o tempo foi passando, o fundamento lançado por Paulo (1 Coríntios 3:10) foi ficando mais evidente. Digo isso porque, no início, faziam com pouco entendimento, mas movidos por boa intenção. Com o tempo, e com o afastamento do engano eclesiástico e a exposição das Escrituras sem o fermento(má doutrina), as verdades foram sendo resgatadas. Foi uma leitura importante para mim. Nã...